sexta-feira, 8 de outubro de 2010

3. Mistérios da meia-noite

         O trabalho num destacamento PM, por sua especificidade e característica de cidade pequena, povo cheio de crenças e superstições, abala profundamente as nossas mais firmes convicções. O limite, entre o que é real e o que é produto da fértil imaginação da população local, estreita-se ainda mais quando ouvimos histórias que partem de pessoas de firme posicionamento e séria reputação.    
Quando um jovem me noticia algumas dessas histórias, não atribuo qualquer credibilidade. Quando os “causos” partem dos mais velhos, aí sim me trazem calafrios. 
De outra sorte, também não são incomuns fatos envolvendo diversas espécies do reino animal, além do próprio homus sapiens é claro. Cavalo acusado de crime contra a liberdade sexual de uma égua, papagaio que infringi a lei do silêncio, cachorro ladrão de carne em açougue, estupro de bezerra não são ocorrências completamente atípicas.
      Um fato ocorrido naquele longínquo e diminuto destacamento de Polícia Militar englobou os dois requintes: o animalesco e o assombroso.
Sei que a exposição dessa história contraria a vontade do protagonista (que podem acreditar, não fui eu!), mas mesmo assim, levarei ao conhecimento de todos. Entendo que o acontecido pode servir de instrução e engrandecimento intelectual daqueles que futuramente poderão vir a trabalhar, ou já trabalham, em destacamento. Só faço uma pequena ressalva: militares com angina, problemas cardiorrespiratórios, histórico de infartos na família, por favor, não leiam este texto, a possibilidade de perdermos um colega enfartado é muito grande.
Pois bem, era uma sexta-feira treze, meia noite. O militar consultava o arquivo a procura de um Boletim de ocorrência com a natureza: encontro de cadáver. Com as costas voltadas para a rua percebeu, pela parede a sua frente, que alguém havia adentrado ao quartel. Displicente e aguardando o cumprimento, não se virou para verificar quem era e continuou a busca ao boletim. Observando a parede, percebeu uma sombra surgir vagarosamente ao seu lado e na cabeça dela, dois enormes chifres. A sombra cresceu até que se estagnou na altura de seus ombros. O PM estava perplexo e desencorajado em olhar para trás, piscava forte e esfregava os olhos já cheios d’água. Olhou fixamente para a parede e confirmou que a sombra não era unicamente fruto de sua assombrada consciência.
Amedrontado, ameaçou mover um braço. Antes que esboçasse qualquer movimento, um som nada convencional saiu da boca daquilo que estava atrás dele e ocupou todo o ambiente. O militar permaneceu ali, paralisado, ou melhor, quase paralisado, pois os calafrios e a tremura tomaram conta de seu corpo. Os pelos se arrepiaram, o coração acelerou, os fundos das calças já não estavam como antes, sorte que a farda também era marrom.
Por um instante achou que desmaiaria de medo. Tentou segurar de todo modo, todavia a bexiga bambeou e nessas alturas já deixava escapar algumas gotículas na dianteira da calça.
Repentinamente um surto de coragem ascendeu por seu trêmulo corpo. Firmando-se nas pernas, respirou fundo, rangeu os dentes e, num lapso de memória, lembrou-se de que era um militar, que militar não teme, que militar é macho (até mesmo as femininas, quando necessário), militar é superior às forças da natureza, militar não chora, nem faz o que ele quase fez nas calças, ou fez, não sei. Nesse momento, empurrado por um espírito de bravura e num esforço descomunal, voltou-se para a porta e encarou o bicho, que além dos chifres tinha também uma grande barba preta. Olhou nos olhos daquele ser repugnante e disse:
_ Racha fora daqui! - Ordenou bravamente -. Eu não tenho medo de você, some!
Nenhuma resposta partiu daquele bicho que o olhava fixamente, ali da porta.
Um pouco mais calmo e já conseguindo segurar o fluxo urinário, pegou um bastão de madeira, levou bruscamente em direção ao bicho e mais firmemente, ordenou:
_ Sai daqui porqueira!
Intimidado e sentindo firmeza nas palavras do militar, o bode virou-se, fez aquela típica jogadinha de poeira pra trás, mirou a rua e deixou o quartel.

2 comentários:

  1. Josdag conta aquele fato em que o suspeito mijou em sua mão durante a bordagem.

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